Historiografia

Christopher Hill e a Nova Esquerda Inglesa

 

Por Mariana, Jessé e Ricardo


Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht, Perguntas de um Operário Letrado.


Nova Esquerda Inglesa

A Nova Esquerda Inglesa surgiu em 1956, com historiadores britânicos vinculados ao Partido Comunista Inglês, que, descontentes com o regime stalinista, romperam com o partido e acabaram por influenciar fortemente a historiografia britânica. Desse movimento participaram Raymond Williams (1921-1988), Eric Hobsbawn (1917- ), Cristopher Hill (1912-2003), Perry Anderson (1928- ), Maurice Dobb (1900-1976) e Edward P. Thompson (1923-1993), entre outros. Na década de 1950, esses dissidentes do Partido Comunista Inglês passaram a reescrever a História britânica, de modo que contribuíram mais especificamente para os estudos de História Social. Alguns destes intelectuais fundaram a revista New Left Review, em 1959, para divulgar suas idéias a partir de uma releitura crítica de vários conceitos marxistas.

Os historiadores dessa corrente teórica consideram a subjetividade, as relações entre as classes e a cultura. Defendem, ainda, que a consciência de classe se constrói nas experiências cotidianas comuns, a partir das quais são tratados os comportamentos, valores, condutas, costumes e culturas.

A Nova Esquerda Inglesa busca superar a visão mecânica e reducionista de uma corrente tradicional marxista que prescrevia uma História linear em direção a uma revolução e, ainda, uma História tradicional calcada em fatos históricos determinados e aliados a figuras de heróis. Os historiadores da Nova Esquerda Inglesa procuraram analisar a concepção de poder de forma a apresentar outros atores sociais e outros espaços de poder, o que ficou conhecido como a “história vista de baixo”.

O conceito de luta de classes passou a ser reconhecido no interior de uma mesma classe e não somente entre as classes. Esses autores elegem a classe trabalhadora como personagem central de seus estudos empíricos e ampliam os conceitos de classe social e de luta de classes, fundamentais no pensamento marxista. Assim, seus estudos não reduzem a explicação histórica pelo aspecto econômico, uma vez que o conceito de experiência envolve de forma dialética, o econômico, o cultural e o social. Passam a usar documentos antes desvalorizados pela historiografia tradicional, tais como processos judiciais, interrogatórios, boletins de ocorrência, canções populares, relatos de tradições orais, livros populares, entre outros.

Os historiadores da Nova Esquerda Inglesa pautam seus estudos na experiência do historiador, na sua dimensão social e investigativa, o que possibilita novos questionamentos sobre o passado, a partir dos quais têm surgido novos métodos de pesquisa histórica. Essa concepção de História, como experiência de homens e mulheres e sua relação dialética com a produção material, valoriza a possibilidade de luta e transformação social.

 

Christopher Hill

John Edward Christopher Hill, historiador inglês, nasceu no dia 6 de fevereiro de 1912 e faleceu em 23 de fevereiro de 2003. Há alguns anos, Hill sofria de Alzheimer. Estudou na St. Peter’s School, York, e no Balliol College, Oxford. Em 1934, tornou-se fellow do All Souls College, Oxford, e, em 1936, professor de história moderna no University College, em Cardiff. Dois anos depois, passou a dar aulas e a orientar teses em história moderna no Balliol. Hill, ainda foi fellow da Royal Historical Society e da British Academy, recebendo diversas menções honrosas das principais universidades britânicas. Hill foi militante do Partido Comunista Britânico de 1930 até 1957, quando se retira, em protesto contra a invasão soviética da Hungria e contra a falta de democracia interna no partido. A partir daí dedicou-se integralmente à vida acadêmica.

Desenvolveu seus estudos do século XVII, da revolução vitoriosa inglesa, da guerra civil e da era Oliver Cromwell. Thompson certa vez descreveu Hill como “the dean and paragon of English historians”. Notabilizou-se por seus estudos baseados na reinterpretação marxista. Entre suas principais publicações estão: Origens intelectuais da Revolução Inglesa; A Revolução Inglesa de 1640; O mundo de ponta-cabeça; O eleito de Deus; Lenin and the Russian Revolution; Puritanism and Revolution; Milton and the English Revolution e A turbulent, seditious and factious people: John Bunyan and his church. A Bíblia inglesa e as revoluções do século XVII obra que foi indicada para o NCR Book Award.

Em entrevista a folha de São Paulo, o historiador Eric J. Hobsbawm descreve Hill como “um historiador repleto de humanismo, discernimento e charme”. Para Hobsbawm, Hill foi “o maior historiador da Inglaterra no século XVII”, seus estudos e opiniões influenciaram a historiografia inglesa e o comportamento político dos intelectuais de sua geração.

 

O Mundo de Ponta-Cabeça: Idéias Radicais na Revolução Inglesa de 1640

Até o advento de O Mundo de Ponta-Cabeça, houve dois enfoques principais sobre o processo revolucionário inglês do século XVII: o triunfo da ética protestante e a ascensão da burguesia (enfoque tipicamente marxista) e a revolução compreendida como “Revolução Gloriosa” (versão produzida pela historiografia liberal). Porém, em um enfoque inovador, Hill joga uma nova luz sobre o processo revolucionário. Limitando-se ao estudo das décadas de 40, 50 e 60 do século XVII, Hill, se atém a uma parte da população que até então passara quase despercebida, ou seja, as camadas populares que participaram da Revolução.

Esta parcela da população teve participação direta no processo revolucionário, e suas reivindicações, assim como suas propostas, poderiam ter levado a Revolução a um rumo completamente diferente. Estes grupos de marginalizados formaram movimentos radicais – Levellers, Diggers, Ranters, Quakers, e outros – cujas ações acabaram desencadeando reações por vezes muito violentas, o que contraria a noção de que a revolução houvesse se realizado por consenso.

Essas propostas radicais (formadas por homens e mulheres pobres sem educação ou erudição) criticavam o sistema que se havia imposto após a decapitação de Carlos I pelo parlamento, e pelo afastamento das propostas defendidas pelos rebeldes no início da Revolução. Pretendendo mudar a realidade em que viviam, propuseram idéias muito radicais para o seu tempo (algumas delas permanecem radicais até hoje para nós), como a abolição da propriedade privada e a instituição da propriedade comunal, o fim dos dízimos e das Igrejas organizadas, a soberania popular e a igualdade entre todos os homens, eleições anuais para o Parlamento, o direito do povo à Resistência Armada contra um Parlamento despótico, a liderança feminina em cultos religiosos, além de revolucionarem os costumes da época – pondo abaixo os preceitos da ética protestante, questionando o pecado em si e gozando publicamente os prazeres que antes destinavam-se apenas aos privilegiados. Os mais radicais, como os Ranters por exemplo, fumavam e bebiam alucinadamente durante seus cultos alem de pregarem publicamente a favor da liberdade sexual, tanto masculina quanto feminina; sendo uma espécie de precursores do amor-livre que teria seu auge na década de 60 do século passado. A idéia da igualdade sexual e da liberdade feminina nos mesmos patamares conhecidos pelos homens era uma proposição que demoraria mais de dois séculos para voltar a ser uma bandeira de luta.

Além dos protestos políticos, Hill mostra a ferrenha crítica religiosa que rondava os radicais, das críticas à Igreja Estatal, do comportamento do clero, e da idéia de que a religião era uma forma de controle e de opressão sobre os pobres; até o radicalismo religioso, com a abolição do pecado e a negação da existência de Deus.
Nesse universo fabuloso de críticas e idéias religiosas, os homens do povo chegaram a conceber um Deus que não era personalizado e exterior ao mundo, imaginaram-No em comunhão com a natureza e com o homem, um Deus que estava em tudo e em todos, que era interno a todos os homens e que por essência fazia todos os homens iguais entre si.

Na obra de Hill sentimos a originalidade do pensamento das classes populares, e percebemos a importância de sua participação no processo revolucionário da década de 40, e, mesmo com a violenta repressão sofrida pelos grupos populares a partir da Restauração, sentimos as suas sobrevivências ao longo do tempo, influenciando, os movimentos subversivos da ordem tradicional inglesa e da luta por direitos por parte das camadas marginais da população.

 

 

Referências Bibliográficas

HILL, Christopher. O Mundo de Ponta-Cabeça: Idéias Radicais na Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

 

http://historiadordoimpossivel.blogspot.com/2007_12_05_archive.html (acessado em: 12/11/2009)

 

http://www.historia.uff.br (acessado em: 30/10/2009)

 

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u31089.shtml (acessado em: 30/10/2009)

 

http://74.125.47.132/search?q=cache:iBSdQXA6wQAJ:www.mrherondomingues.seed.pr.gov.br/redeescola/escolas/27/1470/14/arquivos/File/PPP/historia.doc+%22Nova+Esquerda+Inglesa%22&cd=31&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br (acessado em: 30/10/2009)

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