As singularidades da França Antártica: o trabalho com documentos em sala de aula

1) Selecione alguns capítulos da obra “As singularidades da França Antártica” de André Thevet e trabalhe com a identificação e explicação do documento em sala de aula:  

  

 

IDENTIFICAÇÃO DO DOCUMENTO

 Origem

Livro As singularidades da França Antártica, de André Thevet. Traduzido por Eugênio Amado, publicado em Belo Horizonte por Ed. Itatiaia e em São Paulo por Ed. Da Universidade de São Paulo, 1978.

 

 Natureza

Fonte primária; texto; relato de viajante (a partir do olhar do próprio autor, André Thevet).

 

Autor

André Thevet nascido em Angoulême, França, no ano de 1502 e falecido em Paris em 1590. Publicou obras de sucesso na Europa, relatando sua viagem à América e às outras terras e ilhas descobertas quando viajava como capelão do cavaleiro de Malta, Nicolas Durand de Villegagnon. Foi cosmógrafo do rei Carlos IX da França, guarda das curiosidades reais e abade de Masdion, em Sanitonge.

 

 Datação

A obra foi publicada pela primeira vez em 1557 em Paris, no entanto, o documento aqui utilizado foi publicado em 1978.

 

 Pontos importantes

Índios; Franceses no Rio de janeiro, 1555-1567; Antropofagia; Etnocentrismo; Eurocentrismo;

 

 EXPLICAÇÃO DO DOCUMENTO

 Quando?

O documento é contemporâneo ao seu autor e aos fatos por ele relatados. Em 1555, os franceses sob o comando de Nicolas Durand de Villegagnon vieram ao Brasil na tentativa de estabelecerem por aqui uma colônia, denominada França Antártica.

Alguns fatos relevantes que estavam ocorrendo na época: 

As grandes navegações; A descoberta e a exploração do Novo Mundo; A disputa entre franceses e portugueses pelas terras do Brasil; O Renascimento; A Reforma Protestante (lembrando que na França estavam acontecendo as Guerras de Religiões, que em 1572 culminariam na fatídica Noite de São Bartolomeu); etc.

 

 Onde?

Thevet retrata a América e outras ilhas descobertas em sua viagem entre 1555 e 1556. Relata o Brasil entre novembro de 1555 e janeiro de 1556. Relata também, o Rio de Janeiro do século XVI.

 

 Quem?

O frei franciscano André Thevet, nascido em Angoulême, França, no ano de 1502 e falecido em Paris em 1590 dá um testemunho direto de sua viagem ao continente americano e a outras ilhas descobertas em sua viagem entre 1555 e 1556, enquanto acompanhava o cavaleiro de Malta, Nicolas Durand de Villegagnon em sua tentativa de colonização francesa no Brasil. Publicou os relatos em 1557 As singularidades da França Antártica, onde faz um impressionante relato descrevendo as peculiaridades do “Novo mundo”, os costumes “exóticos” dos ameríndios, a diversidade da fauna, da flora, etc. Em 1575, publica o livro Cosmografia Universal, onde trata do mesmo tema.  Foi também guarda das curiosidades reais e abade de Masdion, em Sanitonge.

 

 De quem?

A obra fala dos ameríndios e da terra do Brasil no século XVI, descrevendo seus costumes exóticos e peculiaridades.

 

 Qual a natureza?

Trata-se de um relato de viajante. Servindo para descrever as singularidades da terra estranha para proveito dos estudiosos do reino da França, e para a “ilustração e enriquecimento das boas letras”.

 

REFERÊNCIAS:

THEVET, André. As singularidades da França Antártica. Tradução de Eugênio Amado. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1978.

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2) Análise do texto com fundamentação teórica (teoria das representações sociais de Moscovici):

 

Antropofagia e a Idéia de Representação Social em André Thevet

  

Por Mariana e Ricardo

 

              Em 1555, cerca de 600 franceses comandados por Nicolas Durand de Villegagnon desembarcaram na baía da Guanabara instaurando uma colônia francesa denominada França Antártica. Entre os tripulantes, encontrava-se o frei franciscano André Thevet.

               Nascido em Angoulême, França, no ano de 1502, mais tarde viria a se tornar cosmógrafo de Carlos IX da França. Em 1557 publicou As singularidades da França Antártica, obra em que faz um impressionante relato descrevendo as peculiaridades do “Novo mundo”. Foi um best seller. Em 1561 saiu uma tradução italiana em Veneza, reeditada em 1584, e a tradução inglesa foi publicada em Londres, em 1568. Em 1575, Thevet ainda publicaria Cosmografia Universal, tratando do mesmo tema. Faleceu no ano de 1590 em Paris.

             Utilizaremos como referencial teórico a teoria das Representações Sociais do psicólogo social Serge Moscovici.

             Moscovici nasceu em 1928, em Braila, na Romênia, no seio de uma família judia. Sofreu discriminação anti-semita, chegando a ser expulso em 1938 de uma escola em Bucareste. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi colocado num campo de trabalho, sendo liberto em 1944. Em 1948 migrou para a França, onde começou a estudar Psicologia, mais tarde naturalizando-se francês. Moscovici inaugura uma nova teoria na obra La psychanalyse, son image, et son public, (1961,1976), a teoria das Representações Sociais.

            Segundo Moscovici,

 Representar uma coisa (…) não é com efeito simplesmente duplicá-la, repeti-la ou reproduzi-la; é reconstituí-la, retocá-la, modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de ‘realismo’. (Moscovici apud Sá: 1993)

            Para Moscovici, a representação pode ser aplicada em um objeto não presente dando-lhe um sentido, simbolizando-o e por outro lado, também dá ao objeto uma concretude icônica, tornando-o tangível.

            Seguindo a perspectiva da Nova História[1], que nos permite dialogar com outras Disciplinas, utilizaremos a teoria de Moscovici, para tentar entender a relação entre as Representações Sociais e o ritual Antropofágico na obra de André Thevet.

            Entre os costumes exóticos dos ameríndios, uma das coisas que mais chocaram os europeus foi a forma com que eles tratavam seus prisioneiros de guerra, utilizando a prática da antropofagia. É necessário apontar que há uma diferença entre os termos antropofagia e canibalismo. O termo canibalismo, está relacionado ao ato de comer a carne humana para saciar a fome; ou uma vontade impronunciável e incontrolável geralmente associada ao crime e à loucura; ou ainda, associado ao ato arbitrário, de crueldade. No caso dos ameríndios descritos por Thevet em Singularidades da França Antártica, o ato de comer a carne humana está relacionado aos rituais sociais coletivos, sendo assim denominados antropofagia. Thevet descreve no capítulo XL, esse tratamento de “excessiva crueldade” sendo etnocêntrico já no título “De como esses bárbaros matam e devoram seus prisioneiros de guerra” (p.131), classificando os ameríndios como bárbaros, termo pejorativo entendido pelos europeus como seres não-civilizados, rudes, cruéis, de inferioridade cultural. A palavra “bárbaro” vem do grego antigo, βάρβαρος, e significa “não grego“. Era como os gregos designavam os estrangeiros, aqueles povos cuja língua materna não era a língua grega. No Império Romano a expressão passou a ser usada com o sentido de “não-romano” ou “incivilizado” (lembrando que quando Thevet escreveu a obra a Europa estava em pleno Renascimento Cultural, e uma das características desse período era exatamente o resgate da cultura clássica Greco-Romana).

            Dava-se uma companheira para o prisioneiro que esperava a decisão, se seria executado, trocado ou doado (essa decisão podia se prolongar por anos). Enquanto esperava, o prisioneiro era muito bem tratado e alimentado, o “objetivo é o de engordá-lo qual capão na ceva, até que chegue o dia de matá-lo” (p.131), aqui o frei faz uma comparação entre o capão (tipo de frango) na ceva e o ato de engordar o prisioneiro, tornando mais fácil o entendimento de seus leitores europeus.

      Quando se aproximava a ocasião festiva da execução, eram feitos convites às aldeias vizinhas. Enquanto isso, as mulheres preparavam o cauim,[2] que todos bebiam a vontade até a véspera da cerimônia.

            No dia da cerimônia, o prisioneiro é pintado segundo um padrão especial para a ocasião e levado para o lugar do sacrifício, no meio da aldeia. O índio escolhido para ser o executor era pintado com cores vivas ou untado com gema de ovo, mel ou resina e coberto com penas coloridas. Na cabeça, portava um cocar de penas e o tacape – espécie de porrete de madeira, que chamavam de Ibirapema – também recebia uma cobertura de penas. Thevet descreve esse momento da seguinte forma: “Este carrasco deverá estar o mais ataviado que puder, trazendo sua espada de madeira ricamente guarnecida de penas.” (p.132). Segundo Moscovici, “O propósito de todas as representações é o de transformar algo tão familiar, ou a própria não familiaridade, em familiar”. Carrasco era o nome dado ao indivíduo diretamente responsável pela execução de uma sentença de morte, a figura do carrasco encapuzado durante a Idade Média, (onde as execuções aconteciam com freqüência) tornou-se mítico e assustador no imaginário europeu. Ainda na mesma frase, ao descrever o Ibirapema, objeto estranho aos europeus, o frei o representa com algo que lhes é familiar, uma espada de madeira, facilitando-lhes assim, sua compreensão.

            Depois de receber uma pancada certeira na cabeça, o cativo caia morto. Em seguida o corpo era limpo, cortado e “(…) assado à moda indígena, seus pedaços distribuídos entre tantas pessoas quantas ali se encontrem.”(p.132).

            Todos comiam, menos o executor, que entra em reclusão para se purificar. Este passa três dias deitado na rede, acreditando não poder colocar os pés no chão, “(…) em virtude da tola e generalizada crendice de que se ele assim não o proceder, poderá ser vítima de algum infortúnio, arriscando-se até mesmo a morrer!” (p.133). Aqui o frei parece debochar dessa crença indígena, (um indício é o uso do ponto de exclamação no fim da frase) além da falta de alteridade ao julgá-la de “tola e generalizada”, provavelmente em virtude de sua formação repleta de dogmas da Igreja Católica.

            Por fim, o executor recebe o nome do prisioneiro morto, acrescentando aos que já possui, junto com a glória obtida com seu ato. Os indígenas justificavam que esse longo e complicado cerimonial destinava-se a apaziguar o espírito do morto, para que não procurasse vingança contra seu matador. O ato de devorar o prisioneiro tinha como objetivo vingar os parentes e amigos mortos pelo inimigo, incorporar suas virtudes guerreiras e sua força espiritual.

            Apesar de aparentar ter conhecimento desses significados, em vez de relativização cultural, Thevet preferiu classificá-los como um “povo ignorante” (p.133).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 CARVALHO, Eliane Knorr de. Canibalismo e antropofagia: do consumo à sociabilidade.

Disponível em:

<http://www.anpuhsp.org.br/downloads/CD%20XIX/PDF/Autores%20e%20Artigos/Eliane%20Knorr%20de%20Carvalho.pdf> (acessado em 10/06/2009)

 MAESTRI, Mário. Terra do Brasil: a conquista lusitana e o genocídio Tupinambá. São Paulo: Moderna, 1993.

 MESGRAVIS, Laima. PINSKY, Carla Banssanezi. O Brasil que os europeus encontraram. São Paulo: Contexto, 2002.

 SÁ, Celso Pereira de. Representações Sociais: o conceito e o estado atual da teoria. In: SPINK, Mary Jane (org.). O conhecimento no cotidiano: As representações Sociais na perspectiva da Psicologia Social. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1993.

 THEVET, André. As singularidades da França Antártica. Tradução de Eugênio Amado. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia. São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1978.


[1] A Nova História surgiu na França, no final dos anos 1920 como uma nova tendência historiográfica que contesta a História Tradicional. Entre as propostas da Nova História, está a utilização de diversas fontes como documentos Históricos, além de propor um diálogo da História com outras disciplinas, como a Psicologia Social.

 [2] Cauim era uma bebida fermentada a base de milho ou mandioca, onde as mulheres mastigavam e depois cuspiam nos jarros para posterior fermentação.

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